quarta-feira, 2 de setembro de 2026

"É só aliviar a pressão no manche"

 


"É só aliviar a pressão no manche"

Esses dias ficamos sabendo que Lito Sousa, grande nome da aviação brasileira no YouTube, está muito doente. Uma doença rara, neurodegenerativa, progressiva e sem cura conhecida. 

Grande comoção, e muitos estão tentando ajudar, com indicações de tratamentos experimentais, uso compassivo de medicamentos, protocolos de controle da doença, homenagens. É um comunicador no melhor sentido da palavra. Mais precisamente um divulgador técnico e científico, tipo Carl Sagan ou Átila Iamarino.


Houve um tempo em que vi bastante o canal, até que outras prioridades acabaram requerendo minha atenção. "Pai, temos que assistir a todos os filmes e séries do MCU da Marvel em ordem cronológica!". 

Mas graças a seus ensinamentos sou capaz de formular frases do tipo "Para evitar o estol em curva lenta, é só aliviar a pressão no manche para reduzir o ângulo de ataque antes de atuar os ailerons". Embora eu não saiba muito bem a que tipo de ataque se refere esse ângulo, e intua que dar uma aliviada na pressão deva ser uma coisa boa. 

Ah, mas sei que ailerons são aquelas peças que levantam e abaixam no meio das asas, e sempre parecem balançar muito mais do que a prudência deveria admitir. Nunca tive medo de voar, entretanto. Talvez menos por coragem que por uma certa indolência inconsequente. Viajar de avião é muito seguro, dizem. Para as malas talvez nem tanto; já as recebi destruídas algumas vezes. 

E o bom mesmo são os acidentes aéreos. Não o acidente em si, claro, não me entenda mal. Mas o jeito como o Lito explica. Ele sempre usa a imagem de uma corrente cujos elos vão se fechando. Para que um acidente ocorra é necessário que vários problemas menores vão se encontrando, até que... "Todos os elos da corrente se fecham". Se isso tivesse sido feito, se aquilo não tivesse sido feito. 

E veja só, quando ele fala isso até parece que é da TI e está falando para mim e para meus colegas de profissão.

Que ideia elegante e absurdamente útil: de uma dada causa segue-se necessariamente um efeito. Assustadoramente simples. E o contrário não deixa barato: se nenhuma causa determinada for dada, é impossível seguir-se um efeito.

Ora, isso elimina imediatamente qualquer sedução ao mistério, à sorte ou às forças ocultas. Se algo acontece, há uma causa. Até pode ser que você ainda não saiba qual, por ignorância, porque não deu tempo de investigar ou porque o software é fechado e proprietário. Porém, que há uma causa, ah... isso há. Quem está trabalhando no caso tem, portanto, obrigação de ao menos tentar descobrir. Mas pode ser que se queira permanecer no escuro, como um joguete das circunstâncias.

Penso no que diria se eventualmente encontrasse o Lito, talvez alguma bobagem sobre ailerons e manches. Mas gostaria mesmo é de falar de encontros, de causas e da capacidade (ou não) de agirmos de acordo com a nossa própria natureza.

Primeira publicação: 02/09/2026
Licenciado sob CC BY-ND 4.0 

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