quarta-feira, 9 de setembro de 2026

"Valha-me minha Santa Bárbara!"


"Valha-me minha Santa Bárbara!"

Estava coordenando uma implantação para uma fábrica de celulose, e certos detalhes estavam especialmente complicados. Precisávamos fazer algumas alterações, mas a gerência resistia.

Nosso contato na empresa disse: "Olhe, o diretor falou que você está propondo essas ideias porque ainda não sabe as coisas giram por cá". "Não seja por isso", respondi. "Se o problema é esse vou aí ver".


E fui.

O aeroporto ficava a cerca de 80 km. Nesse dia haveria um funcionário chamado Jonas que precisava ir à fábrica, e um motorista com carro da empresa. Eu iria e voltaria de carona com eles.

Durante o caminho foram quilômetros de estrada de terra poeirenta, em meio a intermináveis plantações de eucalipto.

Enquanto isso, Jonas discursava. Era simpático, falante e entusiasmado: "Olhe, se ligue, não tem um cara de barba sentado numa nuvem controlando o mundo lá de cima, não. Deus é o mundo mesmo, é a natureza. É o mar, o vento, eu, você, uma coisa só. Aprenda, isso se chama imanência. Transcendência mesmo não há não". "E olhe, é só pela razão que a mente da gente clareia e conhece a causa real de tudo". Estava interessante essa viagem, a estrada de terra, a poeira, todo aquele eucalipto e ao mesmo tempo ouvindo sobre imanência e transcendência.

Chegando à fábrica fiquei o dia todo em reuniões e conheci a equipe pessoalmente. E conseguimos entrar num acordo sobre como deveriam ser os processos. Enquanto isso, do lado de fora chovia. No fim do dia voltaríamos juntos, no mesmo grupo.

Já era noite, e a estrada de terra estava lamacenta. O motorista pelo jeito estava meio apressado, e fazia as curvas de um modo um tanto quanto imprudente. Mas Jonas não se intimidava e continuava seu discurso animado, como se nada estivesse acontecendo.

Quando de repente o motorista errou uma curva. A traseira do carro encontrou o barro liso e escorregou como sabão. Quando um carro gira a coisa toda dura poucos segundos no relógio, mas para a gente parece que é uma eternidade. Girou, meus amigos, como se estivéssemos numa espécie de parque de diversões da agonia. Enquanto isso, Jonas gritava a plenos pulmões: "Meu Senhor do Bonfim, tenha misericórdia! Valha-me minha Santa Bárbara, me salve minha mãe!".

E o carro parou. Felizmente não saiu da estrada, não capotou e não teve danos. Nós três, entretanto, é que estávamos meio danificados. Saímos do carro com o corpo tremendo, tentando engolir o coração que quase havia saído pela boca.

Depois do episódio o motorista passou a dirigir mais devagar e de forma um pouco mais decente. Quando os batimentos cardíacos já haviam voltado à normalidade e meus companheiros de viagem já estavam mais bem-humorados, perguntei: "Mas Jonas, e aí, evocando Nosso Senhor do Bonfim e Santa Bárbara, cadê aquela história toda de racionalidade e imanência?".

"Ah, meu amigo, na hora do perrengue a gente a apega ao que está mais perto do coração da gente."

 

Primeira publicação: 01/07/2026
Licenciado sob CC BY-ND 4.0 

 

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