quarta-feira, 23 de setembro de 2026

"Eu digo o que quero e eles fazem. Para você tenho que ficar me explicando!"

 


 "Eu digo o que quero e eles fazem. Para você tenho que ficar me explicando!"

Há empresas do agro que têm seus escritórios administrativos em prédios envidraçados da Faria Lima. Porém, há outras que trabalham em benfeitorias feitas dentro das próprias fazendas. Essa empresa era uma dessas. O prédio era simples mas muito bonito, até parecia uma casa antiga de fazenda.

 
Estive lá por uns dias, coordenando uma equipe de implantação. O projeto era grande e fizemos vários desenvolvimentos personalizados. Da janela do escritório dava para ver a plantação a perder de vista, e os caminhões carregados que iam para a usina.

No último dia notei um senhor de uma certa idade, vestido de forma bem simples, com botas meio sujas de barro. Ele trouxe um pote de doce de laranja-azeda, aquela feita só da casca, muito comum no interior de São Paulo e no sul de Minas. Não pude deixar de notar, tive uma tia que fazia esse doce quando sabia que eu iria visitar. Eu e tantos outros tivemos tias que nos adoçavam quando íamos, quem sabe você tenha, ou tenha tido também.

As pessoas iam passando, pegando um café, pegando um pouco do doce, e dizendo "bom dia seu Jonas". E seu Jonas respondia "dia", com aquele jeito. E ficou sentado num sofá, no canto, lendo o jornal.

Enquanto isso a implantação acontecia. O coordenador do projeto me chamou, para explicar uma nova demanda. Disse o que queria, e lembro que achei a ideia um pouco estranha, conflitava com algumas outras decisões que havíamos tomado anteriormente. Me aproximei e disse: "Interessante. E qual é a finalidade desse novo processo? Conte-me mais". O coordenador respondeu, meio exasperado: "Poxa, com todos os outros fornecedores eu simplesmente digo o que quero e eles fazem. Para você tenho que ficar me explicando!". E virou para fazer outra coisa. Fiquei meio sem reação, e tornei a fazer o que estava fazendo antes. Notei que seu Jonas deu uma olhadinha por cima do jornal, mas não disse nada. 

Depois do almoço o coordenador me chamou novamente. Explicou melhor as finalidades do que queria, e conseguimos ajustar a demanda. Funcionaria, e não conflitaria com as decisões anteriores.

No final do dia fomos comer uma linguiça na cachaça, uma pequena despedida, pois eu voltaria a São Paulo logo cedo na manhã seguinte. Perguntei quem era aquele senhor.

— É seu Jonas. Dono dessa fazenda, da usina e de mais duas em Goiás e três no Mato Grosso. Quem gerencia o dia a dia são os filhos, por isso você não o conhecia. Aliás, ele veio falar comigo.
— E o que ele disse?
— Fui pegar um café. Ele levantou, dobrou o jornal, foi até mim e disse no pé do ouvido: "Converse com o moço. Pode ser que o que você quer não seja o que você precisa".

E terminei nossa saída noturna:

— Vamos indo? Quem sabe haja outras coisas que eu também queira e que não sejam exatamente o que preciso.

Primeira publicação: 15/07/2026
Licenciado sob CC BY-ND 4.0

 

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