"Até dá para fazer omelete com ovo podre. Só que não vai ficar gostoso."
Aquela implantação havia sido especialmente desafiadora, a empresa tinha processos muito específicos e exigiu vários desenvolvimentos personalizados. Após alguns atrasos e revisões, havíamos testado, colocado em homologação e estava tudo pronto para a produção.
O ambiente de produção era interno do cliente, e ficava em um datacenter próprio, nos EUA. Desafortunadamente, essa empresa não permitia implantação na nossa nuvem, como habitualmente fazemos.
Só que... Bom, funcionar, até funcionou. Mas com um tempo de resposta entre tartaruga manca e bicho-preguiça contemplativo. Simplesmente não era possível liberar para produção naquelas condições.
Investiguei um pouco, e percebi que o delay estava anormalmente alto apenas para o nosso sistema. Para outros, como o SAP ou o e-mail, tudo estava perfeito. Possivelmente algum tipo de priorização de tráfego. Expliquei minhas conclusões para a gestora do projeto, e ela ficou de ir atrás do pessoal de infra, que ficava nos EUA.
Algumas semanas se passaram, e nada havia mudado. O SAP funcionava que era uma beleza, e o meu sistema seguia com desempenho deplorável. A gestora estava meio que em polvorosa, e me perguntava o que poderíamos fazer. "Migrar para outra nuvem?", eu dizia.
Até que num belo dia recebo uma ligação do gerente financeiro, querendo saber o motivo pelo qual o sistema ainda não havia entrado. Até tentei explicar, mas fui atropelado por um conjunto de impropérios. Dá para entender, ele estava pressionado, outros processos dependiam da entrada em produção. Porém, acabei pensando: "Até dá para fazer omelete com ovo podre, só que não vai ficar gostoso". E respondi: "Paciência, vamos cancelar o projeto então. Não tenho como resolver".
Ato contínuo me liga o líder da gestão de projetos, chefe da responsável pela implantação do meu sistema. Chamava-se Jonas, e tinha um jeito simpático, meio tranquilão.
— Mas o que é isso? Então você brigou com o meu chefe.
— Mas, Jonas, veja só...
— Não, não, sem explicações, vamos resolver o caso.
E resolveu mesmo. Fez o meio de campo, organizou com todos os envolvidos, trouxe a infra local, trouxe os gringos do datacenter, encaminhou, apaziguou com o gerente, refez os prazos, reorganizou as tarefas. Fiquei admirado.
Um tempo depois ele já havia saído da empresa, e nos encontramos para um café. Falei de minha admiração por sua habilidade e perguntei onde tinha aprendido aquilo. Curso de negociação, de gestão de projetos, o quê?
Ele me olhou com uma cara divertida:
— Há pessoas que têm uma certa intensidade. Ela é potencialmente destrutiva, mas pode ser muito criativa se levada do jeito certo. E não estou falando só do meu chefe não. O que eu faço é mostrar por onde a água precisa correr.
E juntando as coisas, de saída para outro compromisso:
— Ah, aprendi isso com a minha filha mais velha, ela é bem assim. Observe mais em volta, quem sabe aprende também?
Primeira publicação: 08/07/2026
Licenciado sob CC BY-ND 4.0

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