"Uma galinha é mais dinossaura que um pterodátilo!"
Era uma empresa na zona sul, longe do centro, perto da represa de Guarapiranga. Levava um bom tempo para chegar lá, no trânsito da cidade, e um tempo ainda maior para sair. O terreno da empresa era grande, bem na direção do sopro da brisa da represa. Havia árvores, bancos, sombra e o jeito de uma São Paulo diferente.
Havia uma mulher do departamento comercial, e junto dela muitas vezes, talvez mais vezes do que devesse, seu filho Jonas, 5 anos de fala, presença e sorriso. Rede de apoio inexistente, entendi, e essa mãe levava o menino para o trabalho. Eu ia a essa empresa com uma certa frequência, nessa época. Se fossem férias escolares, era quase certo que ele estaria lá.
E estar preenchia o lugar.
— Moço, quer uma balinha? — Eu sempre queria. — Você sabe o nome de algum dinossauro?
— Hum... Pterodáctilo?
— Não, não! — Disse ele, seguido por uma risada que se divertia com a minha ignorância. — Uma galinha é mais dinossaura que um pterodátilo!
E desenhava galinhas, dinossauros e outras criaturas monstruosas, terríveis e boazinhas. Nem todo monstro é malvado, dizia ele, e pendurava os desenhos nas paredes, como que nos mostrando o tanto de coisa que já aconteceu nesse mundo.
Às vezes corria para fora a esmo, e girava e pulava, gastando energia sentindo a brisa fresca da represa. E quando cansava caía deitado com as pernas e braços abertos na grama, olhos fechados e ofegante como se tivesse respirado o mundo todo.
Tirava fotos, e um dia tirou fotos de toda a equipe num almoço especial de aniversário, ele comeu pizza e bolo. Baixava e imprimia, mas bem discretamente e com a conivência de um dos vendedores, porque senão a mãe podia dar bronca.
E um dia ficamos sabendo que a mãe estava indo embora da empresa, aquele seria seu último dia. Havia pedido demissão e estava voltando para a cidade de sua família no interior. Lá havia sua mãe, irmãs e sobrinhas, e teria a rede de apoio que não tinha em São Paulo.
Jonas pediu para o vendedor imprimir uma foto colorida e bem grande da equipe de vendas, e pregou a foto na mochila. Notei a foto:
— E aí, Jonas, o que é essa foto grudada na mochila?
Ele desviou o olhar um pouco, olhou ao redor, chegou mais perto e disse baixinho:
— É porque eu não quero esquecer.
É, Jonas, mas pode ser que você esqueça. E talvez em algum momento você perceba que, mesmo esquecendo, o que viveu é único, é seu e está em você. E que todos nós que ouvimos sua voz e percebemos o prazer da brisa em sua respiração ofegante também temos você em nós. Mesmo que você mude, e vai mudar, mesmo que tenha outros encontros tão ou mais marcantes, e vai ter, o que você vive aqui, nessa sucessão de instantes-já, faz de você exatamente o que você é. Esquecendo ou não, "a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida".
Primeira publicação: 22/07/2026
Licenciado sob CC BY-ND 4.0






