domingo, 27 de setembro de 2026

"Uma galinha é mais dinossaura que um pterodátilo!"



 "Uma galinha é mais dinossaura que um pterodátilo!"

Era uma empresa na zona sul, longe do centro, perto da represa de Guarapiranga. Levava um bom tempo para chegar lá, no trânsito da cidade, e um tempo ainda maior para sair. O terreno da empresa era grande, bem na direção do sopro da brisa da represa. Havia árvores, bancos, sombra e o jeito de uma São Paulo diferente.

Havia uma mulher do departamento comercial, e junto dela muitas vezes, talvez mais vezes do que devesse, seu filho Jonas, 5 anos de fala, presença e sorriso. Rede de apoio inexistente, entendi, e essa mãe levava o menino para o trabalho. Eu ia a essa empresa com uma certa frequência, nessa época. Se fossem férias escolares, era quase certo que ele estaria lá.

E estar preenchia o lugar.

— Moço, quer uma balinha? — Eu sempre queria. — Você sabe o nome de algum dinossauro?
— Hum... Pterodáctilo?
— Não, não! — Disse ele, seguido por uma risada que se divertia com a minha ignorância. — Uma galinha é mais dinossaura que um pterodátilo!

E desenhava galinhas, dinossauros e outras criaturas monstruosas, terríveis e boazinhas. Nem todo monstro é malvado, dizia ele, e pendurava os desenhos nas paredes, como que nos mostrando o tanto de coisa que já aconteceu nesse mundo.

Às vezes corria para fora a esmo, e girava e pulava, gastando energia sentindo a brisa fresca da represa. E quando cansava caía deitado com as pernas e braços abertos na grama, olhos fechados e ofegante como se tivesse respirado o mundo todo.

Tirava fotos, e um dia tirou fotos de toda a equipe num almoço especial de aniversário, ele comeu pizza e bolo. Baixava e imprimia, mas bem discretamente e com a conivência de um dos vendedores, porque senão a mãe podia dar bronca.

E um dia ficamos sabendo que a mãe estava indo embora da empresa, aquele seria seu último dia. Havia pedido demissão e estava voltando para a cidade de sua família no interior. Lá havia sua mãe, irmãs e sobrinhas, e teria a rede de apoio que não tinha em São Paulo.

Jonas pediu para o vendedor imprimir uma foto colorida e bem grande da equipe de vendas, e pregou a foto na mochila. Notei a foto:

— E aí, Jonas, o que é essa foto grudada na mochila?

Ele desviou o olhar um pouco, olhou ao redor, chegou mais perto e disse baixinho:

— É porque eu não quero esquecer.

É, Jonas, mas pode ser que você esqueça. E talvez em algum momento você perceba que, mesmo esquecendo, o que viveu é único, é seu e está em você. E que todos nós que ouvimos sua voz e percebemos o prazer da brisa em sua respiração ofegante também temos você em nós. Mesmo que você mude, e vai mudar, mesmo que tenha outros encontros tão ou mais marcantes, e vai ter, o que você vive aqui, nessa sucessão de instantes-já, faz de você exatamente o que você é. Esquecendo ou não, "a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida". 

Primeira publicação: 22/07/2026
Licenciado sob CC BY-ND 4.0 

 

 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

"Eu digo o que quero e eles fazem. Para você tenho que ficar me explicando!"

 


 "Eu digo o que quero e eles fazem. Para você tenho que ficar me explicando!"

Há empresas do agro que têm seus escritórios administrativos em prédios envidraçados da Faria Lima. Porém, há outras que trabalham em benfeitorias feitas dentro das próprias fazendas. Essa empresa era uma dessas. O prédio era simples mas muito bonito, até parecia uma casa antiga de fazenda.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

"Até dá para fazer omelete com ovo podre. Só que não vai ficar gostoso."

 


  "Até dá para fazer omelete com ovo podre. Só que não vai ficar gostoso."

Aquela implantação havia sido especialmente desafiadora, a empresa tinha processos muito específicos e exigiu vários desenvolvimentos personalizados. Após alguns atrasos e revisões, havíamos testado, colocado em homologação e estava tudo pronto para a produção.

O ambiente de produção era interno do cliente, e ficava em um datacenter próprio, nos EUA. Desafortunadamente, essa empresa não permitia implantação na nossa nuvem, como habitualmente fazemos.

Só que... Bom, funcionar, até funcionou. Mas com um tempo de resposta entre tartaruga manca e bicho-preguiça contemplativo. Simplesmente não era possível liberar para produção naquelas condições.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

"Valha-me minha Santa Bárbara!"


"Valha-me minha Santa Bárbara!"

Estava coordenando uma implantação para uma fábrica de celulose, e certos detalhes estavam especialmente complicados. Precisávamos fazer algumas alterações, mas a gerência resistia.

Nosso contato na empresa disse: "Olhe, o diretor falou que você está propondo essas ideias porque ainda não sabe as coisas giram por cá". "Não seja por isso", respondi. "Se o problema é esse vou aí ver".

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

"É só aliviar a pressão no manche"

 


"É só aliviar a pressão no manche"

Esses dias ficamos sabendo que Lito Sousa, grande nome da aviação brasileira no YouTube, está muito doente. Uma doença rara, neurodegenerativa, progressiva e sem cura conhecida. 

Grande comoção, e muitos estão tentando ajudar, com indicações de tratamentos experimentais, uso compassivo de medicamentos, protocolos de controle da doença, homenagens. É um comunicador no melhor sentido da palavra. Mais precisamente um divulgador técnico e científico, tipo Carl Sagan ou Átila Iamarino.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

"E aí, gostou da picanha de bode?"

 

"E aí, gostou da picanha de bode?"

Uma vez fui fazer uma implantação em uma empresa no interior do Ceará. Como o processo era complexo e meio delicado, resolvi ir pessoalmente. Seria também a oportunidade de conhecer pessoas com as quais até então eu havia conversado apenas no virtual.

No início da tarde do primeiro dia de implantação, o gerente do departamento convidou para almoçar.

— Diga aí, macho, tu já comeu picanha de bode alguma vez?

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

"A doçura pode se converter em amargor."


"A doçura pode se converter em amargor."

Há alguns anos fomos selecionados para fazer a gestão de despesas em uma empresa que estava passando pelo processo de substituição de ERP. Fizemos a implantação e deixamos tudo rodando: integração de cartão, funcionários, centros de custos, plano de contas.

Só faltava uma coisa: a interface de contabilização e contas a pagar com o ERP. Pedimos a especificação funcional, várias vezes. A equipe do cliente estava assoberbada com a implantação do novo ERP e meio que deixou de lado.