"A doçura pode se converter em amargor."
Há alguns anos fomos selecionados para fazer a gestão de despesas em uma empresa que estava passando pelo processo de substituição de ERP. Fizemos a implantação e deixamos tudo rodando: integração de cartão, funcionários, centros de custos, plano de contas.
Só faltava uma coisa: a interface de contabilização e contas a pagar com o ERP. Pedimos a especificação funcional, várias vezes. A equipe do cliente estava assoberbada com a implantação do novo ERP e meio que deixou de lado.
Numa terça-feira recebo uma ligação: "Poxa, esquecemos da interface. Preciso dela na sexta de qualquer jeito. O comitê se reúne na segunda para decidir se é go ou no-go." Nosso prazo para esse tipo de coisa é duas semanas... Falei que não dava, ainda mais sem passar por homologação. Resposta: "você tem que fazer, afinal, é realmente parceiro ou não?".
Cedi. Cliente novo, sabe como é. Mobilizei a equipe de desenvolvimento, que parou o que estava fazendo para atender a "urgência". E entregamos a interface na sexta.
Três semanas de silêncio...
Numa quarta, ligação de outro membro da equipe: "Cara, a interface está errada." Especificação na tela, verificamos campo a campo. Tudo certo, batia com a especificação que havia recebido. Resposta dele: "ei, ei, calma aí, que especificação é essa?". Mandaram a errada. E levaram três semanas para olhar a entrega de urgência.
Ato contínuo, nosso amigo da primeira ligação me chama de novo. "Poxa, sabe o que é, foi mal, mandamos a especificação errada mesmo, loucura, não é? Só que preciso da interface refeita até sexta, temos comitê de novo na segunda". Respondi que não, aí já era demais. E disse que gostaria de comparecer à reunião do comitê na segunda. Ele não gostou muito da ideia, mas concordou.
Fui. No térreo do prédio havia uma loja de chocolates. Comprei uma barra grande de meio amargo, e levei para a reunião. Havia umas quinze pessoas na mesa. Distribuí para todos os que aceitaram. A coordenadora do projeto, ao meu lado, disse "que legal, chocolate amargo é muito bom". Respondi, num tom que pôde ser ouvido por todos: "pois é, e sabe por que é amargo? Porque a doçura pode se converter em amargor."
Houve um silêncio um tanto quanto constrangido, vários dos presentes sabiam da situação.
A reunião começou com meu assunto em pauta. Nosso amigo da primeira ligação abriu falando de prazos do fornecedor, de go/no-go e cumprimento de cronogramas. Fiz menção de levantar e disse "ah, então você quer mesmo falar sobre prazos?". A coordenadora pôs a mão no meu braço, me fez sentar, e disse: "não, ele não vai querer falar sobre isso não."
Não precisei dizer mais nada. Mandaram a especificação correta, desenvolvemos no prazo normal, o módulo passou por homologação e entrou em produção na onda seguinte.
A empresa é cliente até hoje, depois disso fizemos vários projetos de desenvolvimento personalizado. Com tranquilidade e sem amargor.
Primeira publicação: 17/06/2026
Licenciado sob CC BY-NC-ND 4.0

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