"Me reconhece? Sou seu ajudante branco. Vim ver o que está acontecendo."
Era o meu primeiro emprego logo depois de terminar a faculdade, e o ERP da empresa se comportava como uma tartaruga manca.
O gerente de desenvolvimento veio falar comigo:
— O desempenho está uma droga, para resolver só com dump e load nesse banco de dados.
Para quem não sabe, dump e load é cuspir todos os dados para arquivos texto e em seguida carregar de novo. Uma espécie de cachorro correndo atrás do rabo da tecnologia. Pensei que fosse piada:
— Dump e load? Fala sério, joga fora essa joça.
— Ha, muito engraçado. Já falei com o seu chefe, você vai executar isso hoje à noite.
Ainda tentei protestar argumentando coisas racionais, veja só que loucura. Mas não teve jeito, a pressão estava insustentável e ia ser aquilo mesmo.
Alguém me mostrou o processo, num ambiente de testes:
— Viu? Mamão com açúcar.
— Esse seu banco tem um décimo do tamanho real — resmunguei.
— Confia, vai dar certo.
Adivinha se deu.
Eu lá dentro do datacenter, um frio, no meio da madrugada, e o programa de carga dos dados tinha um bug ridículo: o campo que contava os registros estourava e exigia um clique. O zumbido do ar parecia uma mistura de mantra com canção de ninar.
Quando vejo caminhando, suavemente, um sujeito de terno e gravata, vestido inteiramente de preto. Devo ter feito cara de espanto.
— Me reconhece? Sou seu ajudante branco. Vim ver o que está acontecendo.
E começou um longo discurso, pela cara dele sobre coisas graves e importantes. Não entendi absolutamente nada, e por fim concluiu:
— E para resolver essa situação, vamos precisar do ajudante preto.
Acordei de sobressalto. "Cara... Dormi no meio do processo", pensei. Só que o sujeito não só continuava ali na minha frente, como um outro vinha entrando suavemente pela outra porta. Também de terno e gravata, mas inteiramente de branco.
— Sou seu ajudante preto. Me reconhece?
E sussurrou ao ajudante branco:
— Preciso de seu conselho — olhando para mim assim de soslaio.
— Está tudo bem, pode falar. Ele é inocente.
Fui chamado de inocente... E o ajudante preto começou a contar uma longa história sobre como havia encontrado chaves perdidas, mas não sabia como utilizá-las. Ele havia procurado o ajudante branco para que ele lhe explicasse os segredos das chaves.
Acordei de sobressalto. Ainda fiquei meio em dúvida, sem saber se havia acordado mesmo ou se era o sonho que ainda continuava. Ter um sonho recursivo por causa de um programa malfeito, isso já era demais.
Fiz rollback, fechei tudo e voltei para casa.
No dia seguinte dei a notícia de que o processo havia sido abortado, e que só o executaria novamente com condições mínimas. Os desenvolvedores corrigiram o programa, e eu desenterrei um servidor velho onde montei um novo ambiente de homologação.
Semanas depois executei de novo, dessa vez sem sofrimento e sem sonhos estranhos.
E todos foram felizes para sempre. Ou até o próximo dump e load, pelo menos.
Primeira publicação: 29/07/2026
Licenciado sob CC BY-ND 4.0

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